Por um dia, Bauru é sede da anistia | Diário de São Paulo

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19/04/2012 | 21h43

Casos como o do comunista Arcôncio Pereira da Silva são julgados por conselheiros de comissão

Cristina Camargo

O ex-ferroviário Arcôncio Pereira da Silva morreu um mês antes da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça realizar em Bauru uma sessão de julgamento em que o nome do comunista mais antigo da cidade foi o principal destaque.

Aos 96 anos, Arcôncio não resistiu a um AVC (acidente vascular cerebral) e morreu no dia 20 de março. Nesta quinta-feira, a Caravana da Anistia esteve na cidade para analisar 35 casos e pedir desculpas em nome do Estado aos perseguidos pela ditadura militar.

Arcôncio, que conseguiu receber a aposentadora e uma indenização do Estado de São Paulo antes de morrer, tinha a expectativa de ser indenizado também pela Comissão de Anistia do governo federal.

O caso já havia sido julgado em 2009, mas houve apresentação de recurso. Nesta quinta-feira, a comissão analisou uma nota técnica e concluiu pelo pagamento de reparação econômica de 120 salários mínimos pela perseguição política sofrida.

O memorialista Antônio Pedroso Jr., filho de um perseguido e procurador de Arcôncio, não saiu satisfeito. Ele queria o reconhecimento da perseguição ao comunista de 1949, quando ele foi condenado à prisão por causa da Greve de Triagem, na ferrovia, até 1970, quando aconteceu a terceira prisão, no auge da ditadura. Arcôncio foi preso também em 1964, ano do golpe.

A Comissão da Anistia, no entanto, entendeu que não há provas documentais para todo esse período e estabeleceu a indenização relativa aos anos em que ele ficou preso.

A viúva do comunista, Zuleide de Souza, acompanhou o julgamento. Ela é que receberá a reparação econômica.

A comissão analisa pedidos de pessoas perseguidas pela ditadura e familiares. São torturados, ex-presos políticos ou militantes e familiares que foram prejudicados na vida profissional por causa da repressão.

Na pauta desta quinta-feira, por exemplo, estava o caso do sobrinho de Dom Hélder Câmara, perseguido por ser parente e ter o mesmo nome do religioso.

Reconhecimento / Os próprios perseguidos ou seus procuradores podem se manifestar durante as sessões.

O diagramador Celso Eduardo Pupo, 65, viveu o “final feliz” de sua história em Bauru.

Ex-militante da organização clandestina VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), ele atuou sob o comando do capitão da reserva Darcy Rodrigues, ex-guerrilheiro e braço direito de Carlos Lamarca.

Celso deixou o grupo em 1970 e tentou voltar ao mercado de trabalho, mas não conseguiu. Por causa do risco que corria, foi viver na França, onde ficou exilado até 1973.

Por decisão da comissão, irá receber indenização de R$ 284 mil pelo período em que foi impedido de exercer a profissão.

“Isso motiva a gente a continuar o trabalho de defesa dos direitos humanos. Houve o reconhecimento”, disse.

Ex-companheiro de Lamarca foi indenizado
O capitão da reserva Darcy Rodrigues, hoje militante político, está entre os moradores de Bauru que já receberam indenização da Comissão de Anistia

35
Foi o número de casos analisados em Bauru durante todo o dia desta quinta-feira

Dota ainda aguarda julgamento
O advogado e ex-vereador Milton Dota aguarda a análise de seu caso. Ele foi preso no congresso estudantil de Ibiúna, em 1968, e não conseguiu voltar ao trabalho no antigo INPS

Amiga de Márcio Toledo defende resgate

Sentada anônima na plateia enquanto os casos de perseguição política eram analisados, a funcionária pública aposentada Beatriz Cintra Labaki, 64, tem uma história tocante para contar.

Ela foi uma das amigas mais próximas do ex-guerrilheiro Márcio Leite de Toledo na fase final da vida dele. Tinha encontro marcado com Márcio no dia em que ele foi assassinado por companheiros da ALN (Aliança Libertadora Nacional), em março de 1971, na capital.

Atuava como ponte entre Márcio, então clandestino após treinamento para guerrilha em Cuba, e um grupo de militantes.

Levou um choque quando foi informada sobre a morte, decidida por militantes que não concordavam com a decisão dele de se afastar da luta armada.

Beatriz criou para si mesma uma missão: resgatar a memória de Márcio, não deixar que ele seja apontado como traidor do grupo guerrilheiro que imaginava poder derrubar a ditadura.

“Acho que o governo brasileiro precisa pedir desculpas”, disse.  Ela lembra que o filho do educador Eufrásio Leite de Toledo, criador da ITE (Instituição Toledo de Ensino), só foi morto por causa da ditadura militar.

Foi Márcio que apresentou o movimento de resistência à amiga, quando ambos estudavam na Escola de Sociologia Política.

“Eu achava que ele era um exemplo, sempre muito sério”, lembrou. “Gostaria que a família dele recorresse à Comissão da Anistia não pelo dinheiro, mas pela memória”.

Os julgamentos, aliás, foram realizados num prédio da ITE que tem o nome de Márcio.

O irmão dele,  Antônio Eufrásio de Toledo Filho, o Toledinho, revelou considerar o fato emocionante. “Ele está presente e nos inspira”, concluiu.

Irmão de Zico lança livro sobre a ditadura

O ex-jogador Fernando Antunes Coimbra, o Nando, 65, irmão de Zico, lança nesta sexta-feira em Bauru o livro “Futebol & Ditadura”, que conta a sua história de primeiro boleiro do Brasil  indenizado pela Comissão de Anistia do governo federal.

Apesar do DNA do futebol da família Coimbra, Nando precisou abandonar os campos após ter sido “catalogado” como subversivo na época da ditadura.

Ele e a irmã mais velha, Zezé, foram professores do PNA (Plano Nacional de Alfabetização), método do educador Paulo Freire que começou a ser aplicado no Rio de Janeiro em 1963 e foi suspenso pelo golpe militar no ano seguinte.  Também era próximo da prima Cecília Coimbra, militante comunista. Chegou a ser preso quando foi ajudar a tia num dia em que Cecília foi levada pela repressão militar.

Passou três dias em pé, com as mãos na cabeça e ouvindo os gritos de desespero dos torturados.

Depois, foi banido do futebol.  Nando se esforçou para não prejudicar a carreira brilhante do irmão. Zico soube apenas recentemente de alguns fatos.

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