Fomos todos espionados | Jornal do Brasil

07/07/2012 | 21h03

Selvino Heck*

Felizmente (ou será infelizmente?), estou muito bem acompanhado. Reproduzo e explico: “CONFIDENCIAL. Serviço Nacional de Informações. Data: 05 junho 1981. Assunto: Pessoas ligadas à subversão no Rio Grande do Sul. Anexo: Cópia de fichas (50 fichas). Em anexo, encaminha-se para fins de arquivo, relação de fichas contendo dados de qualificação, endereços e outros dados, das seguintes pessoas, em três ordens de prioridade, cujas atividades estão ligadas à subversão no Rio Grande do Sul: PRIORIDADE 1 (71 nomes, grifo meu, entre os quais): Adeli Sell, Antônio Cechin, Calino Ferreira Pacheco Filho, Carlos Francklin Paixão de Araújo, Ilimar Franco da Silva, Isabel de Souza Costa, José Antônio Pinheiro Machado, Olívio de Oliveira Dutra, Tarso Fernando Herz Genro. PRIORIDADE 2 (84 nomes): Cézar Santos Alvarez, DILMA VANA ROUSSEF LINHARES, Lauro Haggemann, Marcos Antônio da Silva Klassmann, Selvino Heck, Valneri Neves Antunes. PRIORIDADE 3 (44 NOMES): César Augusto Generalli Busatto, Cláudio Augustin, Gert Schinke, Jorge Santos Buchabqui.

Isso era 1981. Segundo os registros fornecidos pelo Arquivo Nacional, em Brasília, no meu caso, a espionagem começou em 1975. De um calhamaço de referências, pinço as histórias mais interessantes. 

“10/12/1975. Agência 32 do SNI. Assunto: Instituto de Teologia e Ciências Religiosas da PUC/RS. Suspensão de alunos. Texto: No período de 07 a 10 de outubro/75, realizou-se em São Leopoldo a VIII Semana de Reflexão Teológica promovida pelos Diretórios Acadêmicos do Instituto de Teologia PUC/RS e da Faculdade de Teologia Unisinos. O tema central do evento foi: Evangelização no Brasil hoje – conteúdo e linguagem. Participaram aproximadamente 120 pessoas entre padres, religiosos, estudantes de teologia e leigos. Durante o evento foram realizadas sete conferências, que eram completadas com reflexões em grupo e debates no plenário e apresentadas conclusões sobre os temas discutidos. Síntese das conferências, onde foram abordados entre outros assuntos: o regime brasileiro, que é burocrático e autoritário, a ação social, ação católica e ação popular. E foram criticadas as relações Estado-Igreja. No dia 21 novembro/75, o diretor do Instituto de Teologia PUC/RS suspendeu por 30 dias quatro alunos daquele Instituto – Hermes Miolla, Paulo Vidor, Nínive Florisbal Figueiró, Selvino Heck — por ridicularização e publicação caluniosa sobre autoridades brasileiras, contidas no panfleto Comunicação, órgão de divulgação do DAIT (Diretório Acadêmico) PUC/RS. Repercussão dessa suspensão”. (Em final de 1975, grifo meu, os quatro foram definitivamente expulsos da PUC/RS).

“15/04/1977. Assunto: Estão sendo vendidos exemplares do livro de poesias denominado Em mãos, de autoria dos escritores Humberto Gaspary Sudbrack, Umberto Gabbi  Zanatta, Dilan D’Ornellas Camargo, José Eduardo Degrazia, Selvino Heck, Cesar Pereira, juntamente com outros elementos que se uniram a este grupo, entre os quais Sérgio Conceição Faraco, Horácio Goulart, Paulo Kruel de Almeida, Suzana Kilpp, Aldir Garcia Schlee e Airton Aloísio Michels. A apresentação é de Tarso Fernando Herz Genro, elemento pertencente à organização subversiva Ala Vermelha do PCdoB. O livro em questão traz conteúdo ideológico, com tendência esquerdista. Antecedentes subversivos de elementos envolvidos na elaboração do citado livro, bem como pessoas a eles. Constam dados de qualificação. Observação: os números que aparecem registrados após os nomes referem-se aos números de páginas do documento microfilmado nas quais os nomes os nomes são citados” (Aliás, grifo meu, em 2012 deve ser lançado o Em mãos III, com os mesmos, desta vez incluindo Tarso Genro, governador, como poeta).

“24/08/1977. Nesta data, o nominado (eu, grifo meu) foi detido por elementos da Brigada Militar na Praça Argentina/Porto Alegre/RS. No dia anterior, durante manifestação do Movimento Estudantil/RS, o mesmo instigava os alunos participantes a não recuarem diante da ação da polícia”.

“05/10/77. Assunto: Clero Ordem dos Frades Menores Franciscanos – Frei Selvino Heck. Texto: Análise do BCFFSR, órgão de divulgação da Província franciscana com sede em Porto Alegre/RS. A poesia Oferenda, em estilo de oração e de caráter subversivo. O autor (eu, grifo meu) exprime em versos a sua opinião sobre o lavrador brasileiro, colocando-o na situação de escravo. Ao final da poesia, porém apresenta o ponto de vista sobre a situação social do Brasil, afirmando: ‘Te apresento, Senhor, a dor mais viva, o sangue correndo lentamente, o grito morto chorando escravo – o povo todo aprisionado, sem casa e sem esperança’. O artigo Cristianismo e capitalismo, de autoria de SH, e da linha progressista do clero católico. O artigo em questão, claramente de inspiração socialista, coloca a Igreja frontalmente contrária ao atual regime do país. Num próximo artigo, em seguimento à conclusão a este, SH informa que deverão ser vistas e analisadas o que o cristão deve anunciar e denunciar, e o que isso vai representar para os religiosos franciscanos”.

“26/05/1980. Assunto: Atividades e pregação subversiva do padre Selvino Heck no Colégio Anchieta de Porto Alegre/RS – Texto: O padre SH, responsável pelas aulas do Serviço de Orientação Religiosa do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, RS, vem abordando nas salas de aula assuntos que não possuem a menor vinculação com temas religiosos. O padre SH possui registros desabonadores nesta APA, relacionados com sua atuação no movimento estudantil RS. Vide microficha alteração MF1. Anexos do documento: cópia de programa do SOR; cópias de diversas matérias distribuídas aos alunos; cópia de noticiário da imprensa sobre os acontecimentos no Colégio Anchieta; cópia de nota oficial da  direção do Anchieta; cópia de manifestação do Dr. Nelson Oscar de Souza; cópia de nota do Centro de Professores do Anchieta; cópia de artigos do jornalzinho S’Imbora; cópia de matéria distribuída em aula de educação artística”.

“30/04/1981. Assunto: Atividades de grupos religiosos. Texto: recrudescimento das atividades de grupos religiosos, particularmente uma parcela da Igreja católica do Brasil, identificada como esquerda clerical, agora apoiada pela Igreja luterana, nos grandes centros brasileiros, com uma realização mais frequente de Congressos, Conferências e Encontros, dirigidos para as camadas onde se verifica um maior índice de tensão sócio-política na atualidade”.

“14/09/1981. Assunto: Atuação de militantes e ex-militantes de organizações subversivas ligadas a entidades religiosas. Texto: Foram identificados como atuantes e  movimentos e entidades religiosas no RS os seguintes elementos: O irmão marista AC (Antônio Cechin), o economista JPAS (João Pedro Agustini Stédile) e o professor SH (eu). Os três possuem registros no campo da subversão. Vide microficha alteração MF1”.

“20/08/1982. Assunto: visita de Frei Betto a Porto Alegre e Caxias do Sul, RS. Lançamento do livro Batismo de sangue. Texto:  A convite da ECB e com o respaldo político do PT, esteve em Caxias do Sul e Porto Alegre, RS, nos dias 20 e 21 de julho/82, para lançar o livro Batismo de sangue, o ex-terrorista integrante da VPR e ALN CALC, pertencente à Congregação dos Dominicanos de São Paulo”.

“31.10/1988. Assunto: Enfoques sobre a participação da Igreja na política e criação da Pastoral da Política. Texto: O JCP (Jornal Correio do Povo), edição de 16 out. 88, publicou matéria referente a assuntos relacionados com a participação da Igreja na atividade político-partidária. Num dos artigos, e enfocado o problema que encontram os candidatos cristãos, que ao ingressarem na atividade política, estimulados pelo clero, depois de eleitos, sentem-se abandonados pela instituição. Nesse contexto, o ex-frei  SH (eu, grifo meu), deputado estadual pelo PT/RS, declarou que, se a Igreja estimula as pessoas a assumirem cargos, tem de apoiá-las, reconhecê-las como alguém ligado a ela”.

Incontáveis são os registros, sobre as mais diferentes atividades. Um calhamaço de documentos, seja no período da ditadura, seja em tempos de redemocratização, como deputado estadual constituinte. Não sei, hoje, se é de rir, porque os arquivos permitem reconstituir muitos fatos e a história, alguns já quase esquecidos na memória, ou porque são hilariantes na sua interpretação. Ou se é de chorar, porque todos éramos vigiados em nossos passos, pensamento, ação, e muitos e muitas sofreram as consequências. Eu acabei expulso da PUC/RS em 1975, onde fazia os cursos de teologia e letras. Em 1976, tive negada a ordenação sacerdotal, por ser de esquerda e da Teologia da Libertação. Em setembro de 1977, fui demitido do Colégio Glória, onde era professor, sob ameaça da Polícia Federal à direção do colégio: eu poderia ser preso em sala de aula. Em 1977, fui enfiado num camburão da Polícia Militar gaúcha no centro de Porto Alegre, levado ao Dops e devidamente fotografado e fichado oficialmente (aliás, ainda não consegui cópia do fato).  Em 1981, em rumoroso caso, de ampla repercussão, e depois de muita pressão de todos os lados à direção do colégio, acabei demitido do Colégio Anchieta.

A pergunta mais dolorosa que fica, além das perseguições, do exílio, da prisão, da tortura, do assassinato, é: quem eram os delatores? Quem passava as informações? Era alguém que estava permanentemente do meu lado em todos os lugares, em todas as reuniões, no movimento estudantil, nas pastorais, no movimento comunitário da Lomba do Pinheiro, nas atividades político-partidárias-eleitorais, nas atividades legislativas como deputado constituinte.  Quem eram os dedo-duros?

Não há glória. É registro histórico de um tempo de falta de liberdade. Por todas estas razões e outras tantas, a Comissão da Verdade, instalada pela presidenta Dilma, precisa reconstituir a história, contar a verdade, preservar a memória. Para que nunca mais aconteça, a democracia seja consolidada e a Justiça seja feita.

*Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

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http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2012/07/07/fomos-todos-espionados/

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