Sociedade civil faz mutirão pelo Grupo Tortura Nunca Mais | Carta Maior

24/07/2012

Diversas entidades da sociedade civil deram uma grande mostra de solidariedade ao Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro na segunda-feira (23), quando espontaneamente fizeram um mutirão de limpeza e participaram da reunião semanal na sede do grupo. Na sexta-feira (20) a sede do grupo foi invadida e furtada. Entidades enviarão uma carta à Presidência da República prestando solidariedade ao grupo e exigindo a apuração dos fatos.

Rodrigo Otávio

Rio de Janeiro – Populares e diversas entidades da sociedade civil deram uma grande mostra de solidariedade ao Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro na segunda-feira (23), quando espontaneamente fizeram um mutirão de limpeza e participaram da reunião semanal na sede do grupo. Na sexta-feira (20) a sede do grupo foi invadida e furtada. No dia 11, o grupo havia sido vítima de uma ameaça telefônica, quando uma voz masculina informou: “estou ligando para dizer que nós vamos voltar e que isso aí vai acabar”. Uma das decisões tomada pelas cerca de 50 pessoas e 15 entidades que participaram da reunião de segunda-feira foi o envio de uma carta aberta à Presidência da República prestando solidariedade ao grupo e exigindo a apuração dos fatos. O Grupo Tortura Nunca Mais não será signatário da carta.

“Foi muito bonito, foi emocionante! Simplesmente eu cheguei às 16hs e tomei um susto, o Grupo Tortura Nunca Mais já estava cheio. As pessoas inclusive foram mais cedo para lá para ajudar na limpeza, porque ficou tudo muito sujo depois da invasão. As pessoas limpando, varrendo, eu fiquei espantada, houve uma ‘ocupação’ do Grupo Tortura Nunca Mais. Isso já de tarde, na reunião da noite chegou um momento que as pessoas estavam em pé no corredor do prédio, não tinha mais lugar, a porta da sala foi aberta para as pessoas ouvirem a reunião”, disse Cecília Coimbra, ex-presidente e atual diretora da entidade.

O sociólogo e mestre em psicologia social Sergio Moura esteve presente à reunião. Para ele, a surpreendente participação na reunião semanal do grupo “foi uma primeira resposta da sociedade civil organizada ao que nós consideramos um atentado. Foi uma ação visada, uma intimidação. É claro que não foi um roubo ou furto, porque isso não se faz de forma anunciada. Foi comunicado que haveria algo uma semana antes”.

O sociólogo enxerga os ataques ao Tortura Nunca Mais como “dentro do contexto de uma retaliação ao que vem sendo levantado, inclusive através da imprensa, por conta do que foi determinado na OEA (Organização dos Estados Americanos), a condenação do Brasil em relação à sua postura sobre os direitos humanos, e em consequência disso a criação da Comissão da Verdade”.

Para Cecília Coimbra a demonstração de solidariedade ocorrida na segunda-feira é a prova que ações sombrias não conseguem mais calar uma sociedade democrática e participativa. “Quem fez esse tipo de provocação, se queria deixar a gente mal, deu um tiro no próprio pé. Ou seja, o que se demonstrou de solidariedade, fora os mais de 40 e-mails que recebemos no fim de semana, foi impressionante! Nós não tínhamos marcado nada. Era uma reunião de segunda-feira comum”, afirmou.

“As pessoas se deslocaram para lá, em um movimento espontâneo. Isso mostrou a força do Tortura Nunca Mais, sem dúvida. Pessoas que defendem a Comissão da Verdade, com posições diferente da nossa, mas com uma unidade na indignação contra o fascismo, contra qualquer tipo de provocação terrorista, digamos assim. Mostrou o nível de respeito que o Tortura Nunca Mais tem. Várias pessoas, personalidades, entidades, advogados que não puderam estar presentes ligaram para se colocarem à disposição”, completou.

Investigação

As investigações sobre a invasão e o furto na sede do grupo estão a cargo da 10ᵅ Delegacia de Polícia, em Botafogo, e devem ser concluídas em 30 dias. Na invasão de sexta-feira foram furtados cerca de R$ 1500 e documentos relacionados ao projeto clínico de apoio a vítimas e familiares de vítimas de violações aos direitos humanos. Este projeto conta com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU).

O delegado assistente João Ismar afirmou que a próxima etapa é inquirir os funcionários da sede do Tortura Nunca Mais a comparecerem à delegacia para prestarem seus depoimentos formais.

“Fomos ao local ontem (segunda-feira) verificar algumas suspeitas e foi constatado que realmente nenhum arquivo relativo à questão da ditadura foi tocado. O que foi tocado foram notas fiscais referentes a um convênio firmado pelo Tortura Nunca Mais com a ONU. As notas fiscais de determinados serviços sumiram, mas nenhum arquivo histórico, digamos assim, foi tocado. Foram R$ 1.500 e essas notas fiscais referentes a serviços que eles necessitam prestar contas a ONU”, disse ele à Carta Maior.

Sobre uma possível ligação entre as ameaças telefônicas e o crime em um intervalo de menos de dez dias Ismar disse que “nada é descartável, mas concretamente nós temos isso. Está sendo investigado como furto”.

Para a diretora do Tortura Nunca Mais, há ligação entre o telefonema e o furto dos documentos. “O recado foi muito claro: ‘estamos aqui. Saibam que nós podemos entrar a qualquer hora’. O recado é muito claro, é uma questão política. Nós vamos continuar afirmando isso e afirmando que não nos mete medo. Quem passou pelos porões da ditadura civil militar, quem viu companheiro sendo morto, quem tem familiar desaparecido, não tem medo desse tipo de coisa. Não é isso que vai fazer a gente calar a boca. E a amostra foi ontem (segunda-feira), o Grupo Tortura Nunca Mais cheio de gente e nós reafirmando a nossa posição de luta”, disse ela.

Neoliberalismo

Cecília Coimbra também avalia a grande solidariedade recebida pelo grupo como mais um degrau na reafirmação de princípio e valores. “É uma lição que estamos dando que a gente pode viver, lutar, sem nenhum apoio oficial, quer seja financeiro ou qualquer outro. A gente quer mostrar a nossa autonomia, a nossa independência, e esse é um desafio que a gente está se colocando em um mundo como o de hoje. Um mundo neoliberal onde os movimentos, de um modo geral, estão sendo capturados porque necessitam de financiamento. O desafio está colocado: como sobreviver em um mundo como o de hoje mantendo a nossa autonomia e independência, sem ter rabo preso com partido político e com governo nenhum. Esse é o desafio que se coloca para a gente, e isso incomoda muitas pessoas”, afirmou.

Campanha

O Grupo Tortura Nunca Mais está em sérias dificuldades financeiras desde que seus principais parceiros, entidades de direitos humanos europeias, escassearam as doações devido à crise econômica no velho continente. Para manter-se ativo o grupo lançou uma campanha de solidariedade para arrecadar contribuições através de cotas fixas ou esporádicas. Os depósitos podem ser efetuados na conta 77791-3, na agência 0389 do banco Itaú, em nome do Tortura Nunca Mais/RJ. Mais informações no site www.torturanuncamais-rj.org.br

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http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20611&alterarHomeAtual=1

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