Relatórios do SNI relatavam “subversivos no poder” | Diário do Pará

02/09/2012 | 10h24

Primeiro governador eleito por voto direto no Pará ao final do regime militar, Jader Barbalho foi alvo de intensa vigilância feita pela Agência Central do Serviço Nacional de Informações. É o que mostra um relatório produzido pelo SNI a respeito do que é chamado de ‘Infiltração comunista na administração do estado do Pará’, documento a que o DIÁRIO teve acesso.

Datado de 31 de maio de 1984, dois anos depois da eleição de Barbalho e último ano oficial da ditadura militar, o relatório, sob o número 044126 84, monitora as ações do governador e apresenta uma relação dos ‘infiltrados’ no Estado do Pará, nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O relatório produzido pelo SNI classifica as pessoas como militantes ou simpatizantes de organizações subversivas.

“Após a eleição de Jader Fontenele Barbalho pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) para o governo do Pará com o apoio das organizações subversivas atuantes na área, a infiltração comunista na administração pública estadual foi bastante intensificada. Como forma de compensar o apoio comunista recebido durante a campanha eleitoral, o governador Jader Barbalho nomeou militantes e simpatizantes de organizações subversivas para cargos de destaque”, diz o relatório.

A vigilância dos arapongas do governo federal monitorava, inclusive, as ações de governo. Diz o relatório que “o governador Jader Barbalho, o procurador geral do Estado Benedito Wilfredo Monteiro, militante do Partido Comunista Brasileiro, e o prefeito de Belém, Almir Gabriel, que mantém estreita ligação com Raimundo Antônio da Costa Jinkings, membro do PCB, auxiliaram, financeiramente os estudantes paraenses que participaram do XXIII Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), realizado em Osasco, SP”.

A viagem de Jader Barbalho à União Soviética entre os dias 20 a 28 de maio daquele ano, também recebeu atenção especial dos agentes do SNI, que contabilizaram, inclusive as despesas da comitiva paraense, composta por oito pessoas. O SNI também havia se inquietado com a visita do embaixador soviético Vladimir Tchernichov, que no dia 16 de abril de 1984 foi recebido com honras de chefe de estado por Jader Barbalho e Almir Gabriel.

“Vê-se assim, no caso do Pará, que o comprometimento do Governo Estadual com as organizações subversivas tem desvirtuado a ação administrativa naquele estado”, afirma o relatório.

A conclusão do documento é que diversas autoridades destacam-se pelo “seu envolvimento” com a causa comunista. “O governador e o prefeito possuem, nas respectivas assessorias, esquerdistas dos mais diversos matizes, dentre os quais destaca-se o Procurador Geral do Estado (Benedito Monteiro), pela intensa atuação desenvolvida na defesa de causas populares, sobressaindo-se a luta pela posse da terra, nas áreas rural e urbana”.

Como anexo, o relatório produzido pelo SNI destaca o nome de 48 pessoas que seriam infiltrados nos três poderes. Todos subversivos, segundo o documento.

Na relação, estão nomes como o de Vera Paoloni, ex-presidente do Sindicato dos Bancários do Pará, à época militante da Convergência Socialista; José Mariano Klautau de Araújo, assessor do prefeito Almir Gabriel e militante do PCB; Benedito Monteiro, Roberto Correa, Milton Cordeiro, Nise Maria Tavares Jinkings Mello, Guilherme Augusto Pereira, assessor de Comunicação Social, militante do PCB; Inocêncio Gorayeb; Raimundo Jinkings, Jayme Beviláqua, Paulo Fontelles, Humberto Cunha, Ademir Andrade, Hecilda Veiga e Romero Ximenes, entre outros.

Jader: relatório expõe ‘luta pela redemocratização’

“Esse relatório é fruto da minha história e confirma a luta que sempre travei em favor da redemocratização desse país”. Foi assim que o ex-governador Jader Barbalho reagiu ao tomar conhecimento do relatório do SNI sobre seu primeiro governo na década de 1980. “Eu era um governador de oposição e antes havia sido um parlamentar de oposição e fundador do MDB, que abrigou os opositores do Regime Militar de 1964”, relembra.

Jader ressalta que por essas características seu governo abrigava as forças democráticas da época que eram contra a ditadura. “No meu governo não havia patrulhamento ideológico. Fui eu que organizei a oposição aos governos militares no Pará. Foi aqui em Belém que foi realizado o segundo comício nacional em favor das eleições Diretas. O primeiro foi em Goiânia”, ressalta.

O hoje senador da República, que governou o Pará pela primeira vez de 15/03/83 a 15/03/87, diz que sabia das ações do SNI no Pará, tendo em vista que o patrulhamento realizado pelo serviço ocorria em todo o país, principalmente em cima de governos de oposição como o seu. “Esses documentos são a prova cabal que jamais fraudei as bandeiras que sempre defendi. Pertenci ao grupo mais aguerrido do PMDB, os ‘autênticos’ que fizeram uma oposição figadal aos militares. O resultado de ter liderado essa luta no nosso Estado foi que acabei como o primeiro governador eleito de maneira direta. Muitos tombaram nessa luta, como meu pai Laércio, que foi o primeiro deputado estadual cassado pelo AI-5 em 1969”.

Adelina Braglia, 63 anos, diz ter ficado honrada em ter seu nome entre os subversivos da década de 1980, quando o conceito de subversão significava não abrir mão da cidadania e da luta por direitos. “Acho apenas que foi injusto com os comunistas eu ter sido taxada como tal. Porque ser comunista pressupunha conhecimento e apropriação profunda de conceitos e intensa dedicação à causa e, infelizmente, fiquei aquém dessas virtudes. Sou somente uma cidadã que tem como “farol de milha” a compaixão pelo sofrimento do outro e a obrigação de devolver à sociedade os privilégios que tive, num país como o nosso”.

Ela diz que viver as décadas de 70 e 80 no sudeste do Pará, em Marabá, onde a noção de direito era camuflada pela violência dos coronéis da terra, pelo enorme fosso entre cidadania e subordinação intransponível, foi um aprendizado para a vida. “Revi minhas considerações sobre limites e possibilidades, refiz meus precários conceitos de igualdade e solidariedade e aprendi muito mais do que possa ter achado que transmiti”. Ela questionou o fato de ter sido considerada infiltrada, “até do ponto de vista da ditadura, tendo em vista que nesse período cumpri mandatos eletivos como vereadora, de 1983 a 1985, e vice-prefeita de 1986 a 1988”.

Listados pelo SNI dizem sentir ‘orgulho’

Pesquisador do Museu Emílio Goeldi, Inocêncio de Sousa Gorayeb, 61 anos, integrou desde jovem a juventude comunista do PCB. “Reuníamos com frequência para discutir política e naquele tempo o PCB era um partido clandestino. Portanto, só os fatos de estarmos vinculados ao PCB e fazermos reuniões já eram considerados atividades subversivas contra o regime militar”.

Viver aquela época, diz, foi uma constante luta pela liberdade, sabendo que se poderia ser preso a qualquer momento. “Estudar as obras clássicas do socialismo e discutir como fazer política no Pará, em Belém, com os princípios socialistas, lutar pela democracia, por direitos iguais, pelo respeito às minorias, por liberdade de pensamento e de expressão eram as características de quem era taxado de subversivo. Então sim, subversivo com orgulho!”.

Confirmar hoje que está em uma lista de 48 subversivos destacados, diz Gorayeb, soa como um reconhecimento de que sua atuação como estudante, cidadão e pensador foi positivamente importante e consequente. “De alguma forma o conjunto de minhas ações devem ter tido alguma importância para os grandes avanços e mudanças que o Brasil, a Amazônia e o Estado do Pará experimentaram até os dias atuais. Viva a democracia, viva a liberdade, apesar do muito que ainda temos a percorrer para tê-las plenas”.

O jornalista Guilherme Augusto ficou surpreso e ao mesmo tempo feliz de fazer parte da lista do SNI. Ele comandou a Comunicação Social no primeiro governo de Jader Barbalho e disse que em momento algum recebeu telefonemas, ameaças ou chamados que indicassem que estava sendo monitorado pela inteligência governamental. “Se integrar a oposição contra a ditadura é ser considerado subversivo sim, eu sou um subversivo e me orgulho bastante de integrar essa seleta lista de subversivos tão ilustres”, ironizou. (Diário do Pará)

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http://www.diariodopara.com.br/N-160426-RELATORIOS+DO+SNI+RELATAVAM+SUBVERSIVOS+NO+PODER.html

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