Centros de memória precisam dialogar com problemas do presente | O Globo

03/09/2012 | 9h02

Confira a entrevista com Patricia Valdez, do Parque da Memória em Buenos Aires

Juliana Dal Piva

RIO – Desde que foi empossada a Comissão Nacional da Verdade, diferentes entidades parecem ter sentido o impulso necessário para trabalhar projetos relacionados à memória dos anos do regime militar. Em agosto, a prefeitura de Petrópolis publicou um decreto tornando a conhecida Casa da Morte – onde podem ter sido assassinados mais de 20 guerrilheiros – um imóvel de utilidade pública. O objetivo é transformar o local em museu. A professora do curso de Direito da Universidade de Buenos Aires Patricia Valdez alerta, no entanto, que estes espaços devem dialogar com os problemas do presente. Patricia foi uma das organizadoras do maior centro de memória da Argentina: o Parque da Memória em Buenos Aires inaugurado em 2007. A professora argentina também foi diretora executiva da Comissão das Nações Unidades para a Verdade de El Salvador e fundadora do Memória Aberta, organização que trabalha a preservação da memória das violações e direitos humanos sofridos durante a ditadura na Argentina.

Como você vê esse esforço atual do Brasil em tratar o período da ditadura militar?

Acho que o processo que o Brasil está fazendo é absolutamente interessante e mostra que os esforços que foram feitos em diferentes governos, como a Comissão de Mortos e Desaparecidos e a Comissão da Anistia, adquirem distintas luzes também pela vontade política que acompanha e que coloca as iniciativas em um lugar mais ou menos relevante. Realmente, em muitos outros países iniciativas boas não resultaram tão relevantes porque não havia contexto ou manifestação para um resultado mais firme. Mas, eu creio que de todas as maneiras, em cada passo dado, apesar da decisão do STF (lei de anistia) não se pode dizer que no Brasil não haverá Justiça porque Argentina, Chile, Uruguai, Peru mostraram que não há caminhos fechados quando a demanda desde a sociedade é sustentada. E o tema da memória, ainda que pareça estranho trazer, não é uma coisa que vem depois da justiça, da verdade, porque são como quatro pilares: verdade, justiça, reparação e memória.

Quando pensamos na construção de centros de memória, o que é essencial no projeto?

A recomendação que eu poderia fazer é que esses lugares não podem ser desenhados e criados de uma vez e para sempre. Além disso, são lugares que precisam na sua programação fazer pontes entre os problemas que estão abordando e os problemas contemporâneos. E, sobretudo, as pontes precisam gerar um compromisso nos visitantes: as pessoas precisam entender que as soluções para os problemas de hoje precisam do seu envolvimento. Nem sempre quem cria um centro de memória se pergunta quais são os públicos que vão visitar esses lugares. Um centro de memória não pode ser só um lugar de homenagem ou onde o relato esteja exclusivamente centrado nos grupos sociais diretamente atacados. A narração sobre o que ocorreu tem que ser pensada parar ser recebida por diferentes gerações e que não podem, ao ver ou escutar testemunhos de pessoas que foram heróis em seu tempo, pensar que essas pessoas estão longe de seu alcance, sem vínculo com o visitante.

Nesse contexto, seria necessário que esses locais dialogassem com problemas atuais?

Sim, às vezes, tenho a impressão de que é mais fácil, narrar e render homenagens sobre os atos das ditaduras do passado do que fazer algo sobre os problemas graves de direitos humanos que estão afetando nossas sociedades hoje. As reivindicações dos movimentos de direitos humanos não estão encontrando a força que permite uma adesão social para conter a prática da tortura para pessoas que não são perseguidos políticos, mas para aqueles que recebem isso como parte natural do tratamento das forças de segurança.

Que projetos assim existem na Argentina?

O Parque da Memória em Buenos Aires, por exemplo, tem uma aposta importante de combinar uma beleza natural muito imponente, a simbologia terrível e dramática de estar construído ao lado do rio – que sabemos foi o lugar onde um grande número de desaparecidos foram jogados ainda com vida – e o uso da arte contemporânea como um veículo de comunicação. Cada uma das coisas pode ser em muitos casos uma matéria de debate.

Quais são as reações?

Algumas pessoas podem pensar que um lugar muito belo conspira contra a lembrança de atos muito dramáticos, ou ainda a homenagem ao lado do rio está vinculada demais com a morte e a tragédia. Mas, em geral, a reação é muito positiva porque é monumental no sentido da densidade dos nomes, da quantidade, dá conta das dimensões do dano às famílias e a sociedade. Eu diria que quem conhece o parque sofre um grande impacto, toma conhecimento, que é o importante que tem que gerar, sem conhecer não há como fazer nada sobre o passado.

Como os outros países que viveram ditaduras tem trabalhado iniciativas de memória?

Há projetos muito valiosos em vários lugares, o Museu da Meméria e Direitos Humanos no Chile inaugurado pela presidente Michele Bachelet antes do fim de seu governo tem alto nível de sofisticação tecnológica e grandes recursos. No Chile existe ainda, a Villa Grimaldi, o primeiro centro de memória criado, o Memorial Paine, a Casa de Memória Domingo Cañas, o Estádio Nacional, e vários outros mais. No Peru, há muitos no interior, em especial nos lugares próximos aos combates da guerra entre o Sendero Luminoso e o governo peruano. Agora, há também um projeto da criação de um museu. No Uruguai, eles sempre tiveram um memorial na colina de Montevideu e um museu.

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http://oglobo.globo.com/pais/centros-de-memoria-precisam-dialogar-com-problemas-do-presente-5981864

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