Militares que torturaram e mataram devem ser punidos, afirma ex-guerrilheiro | Correio do Brasil

05/09/2012 | 12h22

Vera Sílvia Magalhães, torturada barbaramente durante a ditadura, é amparada por Cid Benjamin ao deixar o cárcere rumo ao exílio

Após 43 anos, completados nesta semana, o sequestro do embaixador dos EUA Charles Elbrick, em um dos episódios mais dramáticos da luta armada no Brasil, marcou a história recente do país. Então integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR 8), o jornalista Cid Benjamin – um dos idealizadores da ação que culminou na libertação de 15 prisioneiros políticos, entre eles o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu e o líder comunista Gregório Bezerra –, passadas mais de quatro décadas, vive em em um país democrático, possível graças ao sacrifício dos homens e mulheres que resistiram à ditadura militar. Os militares que participaram dos atos de tortura e da série de assassinatos políticos naquela época, segundo o ex-guerrilheiro, devem pagar por seus atos.

Em entrevista ao Correio do Brasil, Cid Benjamin – que hoje milita no Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL) – acredita que o país mudou “e para melhor”, após os anos de combate ao aparato da repressão, quando ainda integrava a DI-GB. A dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no antigo Estado da Guanabara, fechou uma aliança com a Ação Libertadora Nacional (ALN), liderada por Carlos Marighella, para o seqüestro político do embaixador norte-americano. Em 5 de setembro de 1969, com a ação em curso, o grupo passa a se autodenominar MR-8, em homenagem ao líder guerrilheiro Che Guevara (que caiu em combate em 8 de outubro de 1967). Apesar das baixas que se seguiriam dias após o sequestro político, a missão cumpriu seu objetivo. Além de salvar os militantes presos da morte certa, pela primeira vez a tortura foi denunciada amplamente no país, após a leitura de um manifesto no rádio e na televisão e sua publicação nos jornais da época.

Com a caça implacável aos autores do sequestro, Virgilio Gomes da Silva, o comandante Jonas, que havia liderado a ação, foi preso, torturado e morto por militares na Operação Bandeirantes (Oban). Cid Benjamin e Vera Silvia Araújo Magalhães (Marta), entre outros militantes do MR 8, também caíram e, posteriormente, foram mandados para o exílio. Vera, pouco antes de morrer, em 2007, lembrou ter sido “a única torturada na Sexta-Feira Santa na Polícia do Exército. E eles me disseram: ‘Você vai ser torturada como homem, como Jesus Cristo’. Para uma mulher, acho que exageraram mesmo. Fiquei cheia de sequelas, cheia de problemas”, lembrou a militante, que precisou ser amparada por Benjamin até o avião em que seriam deportados do país, tamanhos os ferimentos causados pela tortura.

Embora o país tenha mudado muito pouco desde então, Cid reafirma que a luta, na época, foi legítima, mas “necessariamente, seria derrotada”.

– Passados 43 anos do sequestro do embaixador Elbrick, marco da resistência contra o regime militar e pela implantação do socialismo no país, a reforma agrária ainda não aconteceu, sequer a reforma urbana ou nenhuma das outras expectativas encampadas pela guerrilha e, posteriormente, por movimentos de massa que levaram ao poder o Partido dos Trabalhadores (PT), composto então por expressivos segmentos das esquerdas no país. O que mudou no cenário político brasileiro desde então?

– Mudou uma coisa fundamental: hoje vivemos numa democracia. Claro que, com as desigualdades econômicas e sociais marcantes que o país tem, o conceito republicano de que todos são cidadãos com iguais direitos e oportunidades tem muito de conto de vigário. Por outro lado, governos com origem progressista não se dispuseram a contrariar interesses das classes dominantes. Daí não termos tido reforma agrária e daí os lucros dos bancos, das empreiteiras e do grande capital em geral não terem sido afetados e, em alguns casos, terem até aumentado. Se é verdade que, entre os assalariados houve uma melhoria na distribuição de renda, isso não é assim para o conjunto da sociedade, pois os rendimentos dos muito ricos aumentaram ainda mais. Estou seguro de que, se o programa do PT tivesse sido aplicado, teríamos avançado muito mais no enfrentamento dos problemas sociais, pois o país disporia de muito mais recursos para tal. Mas, o PT degenerou-se e hoje não é mais um partido de mudanças. Apesar de tudo, seria cegueira política não reconhecer que, comparado com os tempos da ditadura, muita coisa mudou. E para melhor.

– Um dos presos políticos que o Sr. ajudou a libertar foi o hoje ex-ministro José Dirceu. Passado tanto tempo, incluiria-o novamente na lista dos prisioneiros a serem libertos? Ele seria, segundo o acusa a Procuradoria Geral da República, chefe de uma quadrilha que assaltou os cofres públicos, em uma articulação capaz de perpetuar o poder do PT na República, chamada de ‘mensalão’. O Sr. acredita que este esquema existiu, e justo com o então militante comunista José Dirceu na liderança?

– Não faço política avaliando o passado com as informações que surgiram depois. Naquele momento foi correta a inclusão do nome de Dirceu na lista dos libertados em troca do embaixador norte-americano. Sobre a sua participação ou não no ‘mensalão’, não tenho qualquer informação privilegiada. O que sei é o que tem sido noticiado. Mas acho sintomático que dois procuradores-gerais da República, nomeados por presidentes petistas, tenham classificado Dirceu como “chefe da quadrilha”. Um deles, Antônio Fernando, foi reconduzido ao cargo por Lula mesmo depois de feito essa afirmação na denúncia. Além disso, dos 11 ministros do STF (que agora são dez, devido à aposentadoria de Cézar Peluso), oito foram nomeados por Lula ou Dilma. Assim, embora eu não aprecie especialmente a composição atual do Supremo, é difícil falar em perseguição política ao PT por parte do Judiciário. Por fim, voltando à situação de Dirceu, penso que os papéis de dirigente partidário e lobista são incompatíveis. Se ele optou por ganhar dinheiro dando as tais “consultorias”, deveria abrir mão de ser um líder político. Senão, como saber se tal ou qual posição que defende representa a sua opinião sincera, ou ele o faz contratado por algum cliente?

– Caso o socialismo não avance no país, pela via democrática, o Sr. acredita ser possível um novo movimento revolucionário para uma possível mudança de regime?

– Não. A luta armada contra a ditadura já foi um erro. Não porque fosse ilegítima. Afinal, o recurso à violência contra um regime de opressão é reconhecido como legítimo até pela Carta dos Direitos Humanos da ONU. Mas porque não tinha viabilidade. Necessariamente, seria derrotada. A correlação de forças não permitia outro desfecho que não o acontecido. Com muito mais razão, pensar em luta armada hoje, num regime democrático, seria absoluta loucura. Devo dizer, ainda, que hoje eu dou um valor maior do que antes à democracia e a um caminho democrático para o aprofundamento das transformações sociais. Minha própria visão de socialismo tem hoje um componente democrático muito mais forte do que há 30 ou 40 anos – e isso que nunca fui stalinista. Vejo hoje como o melhor caminho para o socialismo para uma sociedade como a brasileira, no século XXI, o aprofundamento e a radicalização da democracia. Que fique claro: isso não significa desconhecer a luta de classes, nem desconhecer a necessidade de se contrariarem os interesses das classe dominantes – sem o que não se fazem transformações sociais profundas.

– O Sr. é favorável à punição dos militares que participaram ativamente das sessões de tortura e assassinato de presos políticos, na época da ditadura?

– Sou. Não por uma questão de vingança pessoal. Não guardo rancor contra aqueles que me torturaram. Mas, para inibir a tortura no futuro, é preciso sempre punir os torturadores. O futuro da tortura está indissoluvelmente ligado ao futuro dos torturadores. No entanto, até mais importante do que julgar e condenar torturadores, estupradores e assassinos de presos políticos, seria a abertura dos arquivos dos órgãos da Forças Armadas que participaram da repressão política. Quando aquela barbárie vier à luz – e um dia ela virá – serão criados anticorpos para que tais atos nunca mais se repitam no país.

_

http://correiodobrasil.com.br/militares-que-torturaram-e-mataram-devem-ser-punidos-afirma-ex-guerrilheiro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: