Documentos dos militares careciam de credibilidade, afirma presidente da ABI | Jornal do Brasil

06/09/2012 | 19h05

Matéria do Jornal do Brasil repercute entre jornalistas, advogados e ex-jogador

Henrique de Almeida

Os documentos de Informações dos órgãos de repressão na ditadura militar – tal como o apresentado ontem pelo Jornal do Brasil – careciam de credibilidade. Quem, atesta isso é o atual presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo.

“Informes, documentos e relatórios daquela época careciam de verdade nas informações encontradas pelos militares, mesmo naquela época. Após serem liberados para análise, isso fica muito evidente em documentos como esse”, lembrou o jornalista. Ele também defendeu os veículos listados como pertencentes à ” imprensa marrom”:

“Eram publicações que não faziam do jornalismo uma fonte de chantagem de qualquer natureza. Há uma clara impropriedade na lista elaborada pelos militares”.

Como o Jornal do Brasil publicou na quarta-feira (5), um documento oficial do Centro de Informações do Exército(CIE) – o Info 2755/71/S-103.2 -, de 25 de novembro de 1971,  relacionou artistas, entre eles Roberto Carlos e Clara Nunes, como ” dispostos a uma efetiva colaboração com o governo”. A divulgação do documento causou surpresa devido à aparição de nomes sobre os quais jamais houve suspeita de “colaboração” com o regime ditatorial..

>> Documentos da ditadura complicam artistas

Defensor dos perseguidos

Considerado um dos advogados que mais defendeu presos e perseguidos políticos no país, Antônio Modesto da Silveira, que acaba de ser nomeado membro da Comissão de Ética Pública pela presidenta Dilma Roussef, colocou em dúvida os nomes encontrados na lista:

“No documento, se percebe a mistura de artistas. Alguns eram a favor do governo, outros eram contra. Não há veracidade nos nomes desse documento”, critica Modesto. Ele próprio relembra um exemplo curioso de incompetência da censura na antiga sede do Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco:

“Quando eu fui convidado para ir à redação do JB, em uma das notícias censuradas havia a proibição de falar, por exemplo, de uma rixa entre um sargento e um oficial. O motivo da briga seria a apreensão de bens de um contrabandista. Através de uma censura mal redigida, descobria-se o que acontecia, mesmo que vagamente, como neste caso.

Afonsinho defende companheiro

O ex-jogador Afonsinho, que jogou no Botafogo entre 1965 e 1969 com Jairzinho, outro citado no documento dos militares, não acredita que o Furacão da Copa de 1970 tenha colaborado com o governo militar. “Não lembro realmente de nenhuma manifestação do Jair nesse sentido. Se houvesse, eu saberia”, declarou Afonsinho, considerado “comunista de carteirinha” por militares e dirigentes dos clubes que defendeu naquele período.

Afonsinho, em 1970, foi emprestado ao Olaria após divergências com dirigentes do Botafogo. O clube de General Severiano impediu o jogador até de treinar. O motivo era o uso, pelo jogador, de barba e cabelos longos, ato considerado como indisciplina e subversão no Brasil daqueles anos.

Afonsinho emprendia também uma dura luta para ser dono do próprio passe. Na época, os clubes possuíam poder praticamente ilimitado para contratar e demitir atletas, sem que estes fossem sequer consultados a respeito. O jogador conseguiu, em 1971, sair vitorioso na sua luta e ter o direito de decidir seu destino. Mas foi preciso muita  insistência com o Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Com isto, ele se tornou pioneiro na disputa dos jogadores de futebol pelo fim do passe.

A questão ganhou implicação política. Naquele momento de endurecimento, aquela luta, de caráter libertário, teve muita repercussão. Nos meus dois primeiros clubes, eu não tive contrato porque me recusava a assinar os contratos de gaveta que me ofereciam. Quando obtive meu próprio passe, pude enfim exercer minha liberdade, algo tão difícil naquele tempo”, finalizou o ex-craque.

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http://www.jb.com.br/pais/noticias/2012/09/06/documentos-dos-militares-careciam-de-credibilidade-afirma-presidente-da-abi/

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