Comissão da Verdade vai investigar empresas que financiaram ditadura | O Globo

24/09/2012 | 18h41

Uma consultoria de nome ‘CIA’ será a primeira investigada pelos membros da comissão

Tatiana Farah
SÃO PAULO – A Comissão Nacional da Verdade (CNV) vai investigar empresas e empresários que ajudaram a financiar o aparato de repressão durante o regime militar no Brasil. Integrantes da comissão informaram nesta segunda-feira que a primeira a ser investigada é uma consultoria que atuou em São Paulo nos anos 70, com o nome de CIA, arrecadando recursos entre as grandes empresas para patrocinar órgãos clandestinos como a Operação Bandeirantes (OBan).

Além de buscar os financiadores dos aparelhos de repressão, a comissão pretende mapear e ouvir os militares que foram afastados de suas funções durante o regime militar, em busca de informações sobre os responsáveis por crimes da ditadura. Segundo a comissão, há dificuldade de diálogo com os comandantes das Forças Armadas. A maior parte das requisições da CNV é sucedida por uma resposta padrão dos militares de que os arquivos foram incinerados.

– A dificuldade maior é com os militares. Não estamos encontrando no Ministério da Defesa as mesmas facilidades que tivemos com o Itamaraty – afirmou o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, que completou: – Queremos fixar a responsabilidade pela incineração dos documentos.

Em café da manhã com jornalistas em São Paulo, Dias, a advogada Rosa Cardoso, a psicanalista Maria Rita Kehl e o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro fizeram um balanço sobre os quatro meses de existência da Comissão da Verdade. Para Maria Rita Khel, a comissão deve esclarecer a tortura e os crimes da ditadura como “uma política de estado, apontando as cadeias de comando”.

– Temos de fazer um escracho oficial – disse o ex-ministro Dias, referindo-se ao movimento de “escracho” dos agentes da ditadura promovido pelo Levante Popular da Juventude.

A Comissão da Verdade quer ainda acelerar investigações já em curso, como a das ossadas da vala clandestina de Perus. Descobertas nos anos 90, as ossadas ainda aguardam identificação. A CNV explicou que, a seu pedido, a Polícia Federal vai comprar uma máquina de identificação por DNA mitocondrial, de alta tecnologia, que custa cerca de R$ 2 milhões. O aparelho será usado para pesquisar as ossadas dos cemitérios de Perus e Vila Formosa, em São Paulo.

Em São Paulo, 140 mortos e desaparecidos

A Comissão Estadual da Verdade de São Paulo vai concentrar suas investigações em 140 casos de ativistas políticos que foram mortos ou desapareceram em órgãos de repressão do estado. A lista inclui também militantes paulistas que foram mortos em outros estados. A comissão nacional vai amparar as investigações, emprestando seus poderes de convocação de testemunhas e de acesso aos arquivos de estado para acelerar as diligências, que contarão com o apoio do Ministério Público. Uma das atribuições do trabalho será a de providenciar os atestados de óbito devidamente corrigidos dessas vítimas.

– É um absurdo. Em alguns atestados, está marcado como profissão da vítima: terrorista – queixou-se o presidente da comissão estadual, o deputado Adriano Diogo.

A comissão estadual reivindica também, ao lado da CNV, que prédios que foram utilizados pelos órgãos da repressão sejam convertidos em memoriais das vítimas da ditadura.

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