Comissão da Verdade liga Fiesp à produção de armas | Folha de São Paulo

23/11/2012 | 5h

DE BRASÍLIA

O coordenador da Comissão da Verdade, Cláudio Fonteles, divulgou ontem texto que relaciona a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) à produção de armas para o grupo de militares que derrubou o presidente João Goulart em 1964.

Fonteles divulgou ontem, no site da comissão, 11 textos sobre episódios diversos da ditadura (1964-1985).

É a primeira vez que a comissão torna públicos textos produzidos pelo grupo. Segundo Fonteles, a intenção é “abrir amplo espaço de diálogo, visando enriquecer essa pesquisa inicial com sugestões e críticas”.

A tese da associação entre Fiesp e militares não é inédita e consta de estudos acadêmicos sobre as relações entre os militares golpistas e setores da sociedade civil.

As principais informações que constam dos outros dez textos já eram conhecidas de reportagens jornalísticas, estudos acadêmicos e livros sobre o período. Mas neles Fontele também antecipa conclusões que a comissão poderá vir a adotar quando de seu término, previsto para 2014.

Sobre a Fiesp, Fonteles cita relatório confidencial produzido pelo SNI (Serviço Nacional de Informações), hoje sob guarda do Arquivo Nacional, que descreve a criação do GPMI (Grupo Permanente de Mobilização Industrial) no dia 31 de março de 64, data do golpe militar.

Tal órgão, segundo o documento, teve a função de “fornecimento de armas e equipamentos militares aos revolucionários paulistas”.

Fonteles aponta: “A Fiesp na data mesma da eclosão do golpe militar, que em nosso país redundou no Estado ditatorial-militar, celebrou ‘a primeira tentativa de união industrial-militar’, sob o fundamento de que ‘não é possível existir qualquer poderio militar sem uma indústria que faça esse poderio'”.

O coordenador da Comissão da Verdade, Claudio Fonteles

Um total de 75 documentos produzidos pelo GPMI está hoje sob guarda do Cedic (Centro de Documentação e Informação Científica) da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

Segundo texto que apresenta a coleção, “o GPMI não atingiu plenamente seus objetivos, em função da reduzida colaboração do patronato industrial face ao pequeno volume de encomendas. Apesar disso, possibilitou o surgimento de um parque industrial civil direcionado especificamente para a produção de material bélico”.

Nos outros textos, Fonteles afirmou, com base em uma perícia feita pela própria comissão em papéis oficiais, que há diversos indícios de que o guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969) foi morto sem ter reagido a tiros, ao contrário da versão oficial.

Afirmou ainda que o metalúrgico Manoel Fiel Filho (1927-1976), o militante da ALN (Ação Libertadora Nacional) Joaquim Câmara Ferreira e o sargento da Aeronáutica João Lucas Alves (1935-1969) foram mortos sob tortura por agentes do Estado.

Fonteles apontou ainda que agentes da ditadura e médicos legistas encobriram a morte de Aldo de Sá Brito Souza Neto (1951-1971), militante da ALN.

Fonteles afirmou ainda que em 1969 houve intervenção do Ministério da Justiça na investigação da morte do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto (1940-1969), que apontava como assassinos agentes do Estado.

Em texto sobre o engenheiro Raul Amaro Nin Ferreira (1944-1971), morto no Hospital Central do Exército em 12 de agosto de 1971, Fonteles afirma que ele “foi morto, mediante tortura”.

Procurada pela Folha, a Fiesp não havia se manifestado sobre o texto até a noite de ontem. (RUBENS VALENTE E MATHEUS LEITÃO)

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http://www1.folha.uol.com.br/poder/1189745-comissao-da-verdade-liga-fiesp-a-producao-de-armas.shtml

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